#TerraMadre: Duas Semanas Depois

Publicado por em nov 8, 2010 em Blog | 2 comentários

 

É o comportamento individual que muda a política” – Carlo Petrini na conferência sobre Land Grabbing.

Foi uma surpresa (e uma pena) que não tinha internet wi-fi disponível para os participantes do Terra Madre e Salone Del Gusto. Ao meu ver, uma falha estratégica no entendimento de como isso poderia ampliar muito o número de participantes nos dois eventos, de forma virtual. Frases e observações do que estava acontecendo, colocadas instantaneamente nas redes sociais, pelos próprios participantes e em seus próprios idiomas, ampliariam o alcance do que estava sendo discutido e realizado em Turim naquele momento. Anotei alguns pontos chave, que ficariam ótimos no twitter instantaneamente, e que agora fazem pouco sentido fora do contexto. Como a frase acima, de Carlo Petrini durante a conferência sobre Land Grabbing no Salone del Gusto, e estas abaixo:

Fazer melhor com menos, sair do produtivismo” – Serge Latouche, na oficina Políticas Alimentares – Transformações Sociais.

Se você se importa com o comércio justo, você quer o que os agricultores querem. Então, pergunte a eles o que querem. A primeira e principal resposta será: Reforma Agrária.” – Raj Patel, oficina de Políticas Alimentares – Transformações Sociais.

Ainda no Brasil contratei um pacote internacional de internet com a operadora de celular, optando por um pacote pequeno na quase certeza de que o acesso à internet não seria um problema por lá. No Terra Madre havia um “internet point”, com meia dúzia de computadores em uma salinha minúscula. Ficar na fila para acessar a internet, com tudo aquilo acontecendo era impensável. No hotel, internet somente com cabo. Comprei um chip de celular por lá e contratei o pacote de internet. É relativamente barato – 2 euros por acesso ilimitado por uma semana – mas não foi possível configurar o celular: na loja onde comprei o chip não sabiam fazer, por telefone foi impossível. A solução seria ir até uma loja da operadora, o que significava umas 2-3 horas “perdidas”, fora do Terra Madre: desisti.

Então, tudo que eu escrever sobre o Terra Madre a partir de agora não representará o a predominância do meu lado emocional e sim do racional. Já tive muito tempo para pensar, raciocinar e digerir tudo que vi, ouvi e senti.

Ontem, uma frase no twitter, tirada da letra de uma das musicas do Teatro Mágico, representa muito bem o que senti e ainda estou sentindo sobre o Terra Madre 2010: “Não ter festa dá a impressão de que o Mundo ficou sério” (Uma Parte que Não Tinha).

Do começo ao fim, da cerimônia de abertura até a cerimônia de encerramento, o que percebi foi um Terra Madre austero, sério. Em princípio, achei que a sensação se devia ao fato de já estar “acostumada” (afinal foi minha quarta participação), mas agora acho que o evento refletiu o que está acontecendo na Itália, na Europa, no Mundo todo. A crise (econômica, social, ambiental) influenciou todas as conversas e encontros, e o teor do encontro refletiu o amadurecimento da Rede Terra Madre.  Vejam bem, o que escrevo não é uma reclamação, e sim uma constatação pessoal, me colocando no mesmo barco. As discussões, oficinas e conferências foram muito mais fortes e políticas, em comparação com todas as edições. E não vejo a hora de por as mãos no documento político final do Terra Madre 2010, que foi intensamente discutido durante o encontro e será publicado no Dia do Terra Madre10 de dezembro.

Em um almoço por lá, depois de uma reunião importante, ouvi de lideranças reclamações de que o Slow Food (principalmente nos EUA) “não é mais sobre comida e gastronomia, é só justiça social”. A conversa seguiu falando que “antes o Slow Food era sobre o prazer, e que agora é política”. Eu lá, quietinha querendo que ninguém pedisse a minha opinião, e ao mesmo tempo me deliciando com estas notícias. Afinal, pediram minha opinião, e a única coisa que eu disse, sem pensar nas conseqüências, foi: “Difícil pensar somente em prazer sem pensar em justiça social. Com 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo por causa do modelo social e político que se impõe, o Slow Food se enveredar cada vez mais pelo caminho político e a busca da justiça social é motivo de orgulho. O prazer, o bom e o belo são direitos de todos, não são?” Mudamos de assunto….

Ouça o discurso do Carlo Petrini na cerimônia de encerramento do Terra Madre (em italiano, 3 partes, 30 min no total): “A Política não compreende o Caracol, mas o Caracol compreende a Política

2 Comentários

  1. “Slow Food is a small entity,” Carlo Petrini said in Torino, “but this is not a time for parochialism. We want to strengthen rapports with all organisations and movements that work for food sovereignty, that fight against food being considered a commodity.”
    Um artigo interessante sobre o Terra Madre aqui e outro aqui

  2. É bom ler as tuas opiniões digeridas, com tempo para reflexão.

    O texto resulta mais abrangente, dando a impressão que é um bom resumo do que aconteceu em Torino. É também uma feliz constatação perceber que tantas e tão importantes figuras estiveram presentes.

Deixe uma Resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.