Um Pouco Sobre o Vegetarianismo

Publicado por em jul 5, 2010 em Blog | 4 comentários

Há pouco mais de 10 anos, resolvi fazer um experimento em mim mesma. Na época estava fazendo uma consultoria sobre os efeitos das fibras alimentares solúveis na saúde, lendo pilhas de artigos científicos médicos e de nutrição. Já não comia muita carne mesmo, então aproveitei que o namorado carnívoro da época ia fazer uma viagem de um mês, e cortei do cardápio a carne, o frango e o açúcar. Morando em uma vila de pescadores, ficava difícil tirar o peixe do cardápio, mas de qualquer forma, consumia muito pouco, talvez uma vez por semana.

Era para ser apenas um mês, mas ao final do prazo me sentia de alguma forma melhor, e o experimento foi se estendendo, sem data para terminar. Alguns meses depois embarquei para a Escócia. Logo no início assisti a uma reportagem sobre os problemas com a pesca no Mar do Norte (praticamente extinta), e convivi com biólogos marinhos que estudavam os efeitos do cultivo de salmão sobre o meio ambiente. Foi a deixa para cortar de vez o peixe do cardápio. Foi neste ponto que comecei a desenvolver uma visão mais crítica em relação ao consumo de alimentos. Visão esta que anos na universidade, na graduação em Tecnologia de Alimentos e no mestrado em Ciência dos Alimentos, não me deram.

No Reino Unido a vida do vegetariano é mais ou menos simplificada. Os alimentos processados nos supermercados são rotulados (Suitable for Vegetarians e Vegsoc Approved), assim não é necessário ler todos os ingredientes em letrinhas minúsculas. Como cerca de 7-11% da população adulta tem tendências vegetarianas, em um estabelecimento comercial (como um restaurante), ou uma recepção, de 100 convidados ou consumidores, 7-11 podem ser vegetarianos. Com isso todo restaurante tem pelo menos uma opção vegetariana no cardápio. Tem também os restaurantes especializados, mas estando sempre em minoria nos grupos, e para evitar o isolamento, esta opção vegetariana constante sempre evita o desconforto de pedir para adaptar um prato.

Lá me associei à Sociedade Vegetariana do Reino Unido, a mais antiga do mundo, e pouco a pouco o vegetarianismo foi deixando de ser por razões de saúde e sentir-me bem, para razões mais político-ambientais.

Na Índia a situação foi inversa. Os estabelecimentos e os produtos “não vegetarianos” é que são rotulados, ou seja, o paraíso para o vegetariano que quer comer bem, se você gosta da culinária indiana.

Quase 5 anos depois e chegou a hora de voltar para o Brasil. Na minha cabeça tudo seria muito mais fácil, visto a abundância de frutas e verduras frescas no país. Ledo engano. Comida vegetariana somente em restaurantes especializados, nada de rotulagem e muitas perguntas: “por que?”, “como?”, “você tem alguma doença?”, “como faz para comer proteínas?”…

Na minha família não tem vegetarianos, muito pelo contrário, e no início foi difícil convencê-los a pelo menos deixarem de lado as perguntas. Uma saída foi fazê-los assistir o filme “A Carne é Fraca”. Ninguém da família se tornou vegetariano, mas as perguntas acabaram!

Trabalhando com gastronomia, parece ridículo estar nos restaurantes considerados melhores do Brasil e não ter sequer uma opção vegetariana. Já estive em um restaurante excelente de comida brasileira, com Chef de Cozinha renomada, e tive que me contentar com um prato de espaguete ao sugo. Na gastronomia brasileira existem opções deliciosas vegetarianas, por que não são valorizadas?

Mas agora parece que o jogo está virando. Será que é impressão minha e já acostumei com as perguntas e a falta de opções nos restaurantes?

O que passa é que há tempos não respondo mais às fatídicas perguntinhas chatas.  A opção pelo vegetarianismo tem sido encarada como “normal”, pelo menos por onde ando.  A Sociedade Vegetariana Brasileira, ainda jovem, já tem muitas conquistas e tem feito um excelente trabalho, crescendo a olhos vistos.  Recentemente tive outra experiência em um restaurante estrelado de comida brasileira onde fui muito bem servida, sem perguntas e necessidade de adaptar nada. E o vegetarianismo tem sido enaltecido em diferentes esferas.

É o caso de um relatório recente da UNEP (United Nations Environmental Program – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), que recomenda uma mudança na dieta mundial, afastando-se dos produtos animais (vegetarianismo?) para reduzir os impactos ambientais sobre o consumo e produção: A substantial reduction of impacts would only be possible with a substantial worldwide diet change, away from animal products” (pag. 82).

No dia 15 de junho o Departamento de Agricultura (USDA) e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos lançaram o Guia Dietético para os Americanos 2010 (Dietary Guidelines for Americans 2010) para consulta pública. Dentre as recomendações está a mudança para o padrão de consumo baseado em uma dieta a base de plantas, com ênfase para vegetais, leguminosas, frutas, grãos integrais, castanhas e sementes. O documento tem 677 páginas e pode ser lido na íntegra, ou o resumo executivo.

Até mesmo o Slow Food, que além de promover a diversidade e aceitar o vegetarianismo sem restrições, começa a reconhecer de forma mais evidente esta escolha. Um texto muito encorajador escrito pelo Presidente da Fundação Slow Food para Biodiversidade, Piero Sardo, foi publicado recentemente no jornal La Stampa.

É bom ver o vegetarianismo sendo reconhecido e respeitado, mas eu quero mais. Quero ver mais gente aderindo a esta dieta mais sustentável, se não totalmente, pelo menos reduzindo o consumo de produtos animais. Que tal aderir à Segunda Sem Carne?

Gostaria também de ver mais restaurantes e Chefs de Cozinha do Brasil respeitando esta parcela da população, valorizando os vegetais brasileiros e incluindo mais pratos vegetarianos em seu cardápio, nos brindando com sua arte e praticando uma gastronomia mais responsável.

4 Comentários

  1. É pq as pessoas ainda pensam na proteina de soja e no tofu como base da dieta vegetariana!

  2. Excelente texto! Esse foi o artigo sobre vegetarianismo mais interessante que já li… e que não trata diretamente das razões para ser vegetariano… genial hehe

  3. Ótimo texto!

    Embora eu não seja (ainda?) vegetariana, ando pensando muito no assunto e escrevi um texto sobre isso no meu blog, a propósito do lançamento do livro Eating Animals, do Jonathan Safran Foer: http://cadernosdecozinha.blogspot.com/2010/05/incrivelmente-nojento-extremamente.html

    Abraço

  4. Fantastico!!Obrigada
    abraços

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