A Revolução da Comida e a Alimentação Escolar

Publicado por em set 6, 2010 em Blog | 1 comentário

Ontem assisti pela primeira vez um capítulo do tão falado e premiado projeto do Chef Jamie Oliver, a Revolução da Comida (Food Revolution). O que ele está fazendo é excepcional. Achei que ia vê-lo cozinhando, falando de receitas, mas na verdade todo o projeto está centrado nos aspectos relacionados com a saúde e obesidade e ele mostra uma forma de articulação e convencimento, político e social, para conseguir mudar os hábitos alimentares, com o foco principal na alimentação infantil e de adolescentes. Pelo menos no capítulo que assisti, houve muito pouco de educação alimentar, e bastante de tentativas de convencimento político.

Faltou falar da origem dos alimentos e como que a escolha por alimentos frescos, locais pode influenciar na saúde, na economia, no meio ambiente, na qualidade de vida dos pequenos produtores, quem sabe nos próximos capítulos. O trailer do programa mostra um pouco do que é o projeto:

E vejam que interessante este FlashMob que ele promoveu em Huntington, EUA:

Em um determinado momento ele foi visitar o (praticamente único) fornecedor de alimentos para todo o país, a US Foodservice, e este foi o alimento para que eu pensasse: “nossa, tem uma Revolução da Comida muito mais interessante acontecendo no Brasil, e pouco ou nada se fala disso fora do âmbito dos gestores públicos.

Dados da pesquisa 2008-2009 do IBGE, divulgados há poucos dias mostram uma situação alarmante no Brasil: dentre as crianças de 5 a 9 anos, temos índices de sobrepeso de 32% nos meninos e 34,8% nas meninas, sendo que destes 16,6% e 11,8% respectivamente apresentam obesidade. Quando comparamos com os dados de 1974-1975, a situação fica ainda pior. Veja aqui um infográfico interessante que permite esta comparação. O relatório completo é extenso, mas é interessante ler a seção comentários (em pdf).

Por outro lado, se tomarmos por base a população infantil brasileira como um todo, grande parte da sua alimentação, e em alguns casos a alimentação principal, é feita na escola. E aí vem a revolução da qual falei antes: o Programa Nacional de Alimentação Escolar.

O programa foi criado em 1955, é implementado através do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e tem por objetivo “atender as necessidades nutricionais dos alunos durante sua permanência em sala de aula, contribuindo para o crescimento, o desenvolvimento, a aprendizagem e o rendimento escolar dos estudantes, bem como promover a formação de hábitos alimentares saudáveis”. Em 2009 foi publicada a lei nº 11.947/2009 (em pdf), que determina que no mínimo 30% de todos os alimentos servidos nas escolas e creches de todo o Brasil devem ser provenientes da agricultura familiar. Isto entrou em vigor a partir de janeiro de 2010, e ainda este ano os valores foram reajustados para “R$ 0,30 por dia para cada aluno matriculado em turmas de pré-escola, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos. As creches e as escolas indígenas e quilombolas passam a receber R$ 0,60. Por fim, as escolas que oferecem ensino integral por meio do programa Mais Educação terão R$ 0,90 por dia. Ao todo, o PNAE beneficia cerca de 47 milhões de estudantes da educação básica”, com um orçamento de R$3 bilhões/ano.

O programa é acompanhado e fiscalizado diretamente pela sociedade, por meio dos Conselhos de Alimentação Escolar (CAEs), pelo FNDE, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), pela Secretaria Federal de Controle Interno (SFCI) e pelo Ministério Público.

Logicamente que existem muitos desafios para que tudo funcione. As nutricionistas precisam ser sensibilizadas – são elas que criam os cardápios e muitas conhecem pouco sobre os produtos locais e a agricultura familiar-, as merendeiras precisam ser treinadas e carecem de estrutura – afinal o trabalho delas foi gradativamente se resumindo a abrir pacotes de pozinhos e misturar na água, e agora tem que voltar às origens, cozinhar de verdade, o que demanda tempo e estrutura -, as crianças precisam ser educadas para o gosto dos alimentos verdadeiros e não industrializados, e os agricultores familiares precisam se estruturar para atender a esta demanda.

Ou seja, a nossa Revolução da Comida envolve e tem recurso, vontade política, educação alimentar, envolvimento dos agricultores familiares, desenvolvimento local, alimentação sustentável, 47 milhões de crianças beneficiárias e muitos desafios. Conheço muita gente – agricultores familiares, gestores públicos, nutricionistas – que falam, atuam e vivem com paixão este momento, acreditam realmente nesta Revolução da Comida que está em curso agora mesmo no Brasil inteiro.

Mas falta divulgação, não tem praticamente nada na mídia sobre isso. Seria tão interessante se o Slow Food no Brasil se envolvesse mais com este assunto. Adoraria ver um(a) Chef brasileiro(a) falando e se envolvendo com este tema ativamente, um programa na TV sobre isso….será que estou sonhando alto demais?

Um Comentário

  1. Vc não sonha sozinha. Nem alto demais. É possivel.
    Acompanho o Jamie Oliver desde o começo, conheço toda sua trajetória. Ouço muitas pessoas falando “ele tem que vir aqui e fazer essa food revolution que está fazendo nos estados unidos” Não, acho que não. Desde que me envolvi com o Slow venho pesquisando o que acontece nos ambientes públicos e privados e percebi exatamente isso que v colocou. Programas exemplares verdadeiros e bem costurados publico e privado, mas que não tem divulgação nem mesmo. Eu e a Cenia fomos chamadas para assistir a uma reunião para a multiplicação do programa Consciencia Alimentar do Governo do Estado. Éramos as unicas civis ali. Tinha 180 representantes de municipios que vão aderir: http://www.fundosocial.sp.gov.br/portal.php/programas-projetos_consciencia

    Vendo tantas iniciativas governamentais, muitas ongs empenhadas, e ainda tendo nosso prato nacional a combinação arroz com feijão, vejo que mesmo com os dados alarmantes de saúde das crianças temos vantagem brutal às realidades que O Jamie Oliver enfrenta. Bem antes que o Slow ganhasse a força que está se formando. num país que, Graças a Deus, o prato nacional é Arroz com Feijão estamos anos luzes de vantagem. Se o Jamie tivesse que vir aqui no tema da Revolução da Comida seria para louvar todos esses empenhos.

    ( Nos Estados Unidos a coisa é bem dificil. O prato nacional é a comida industrializada e o pobre não come salada, ele não compra. “Sai caro”. Eu vi uma mãe e filho gastarem todo seu dinheiro em um box de cereais gigante e seis latas de “leite evaporado” . Perguntei a ela sobre a diferença do leite e tal ela me disse “esse não estraga”. Com o mesmo valor que ela gastou eu consegui comprar 01 repollho, 2 cenouras e 01 pacotinho de lentilhas…. )

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