Soja: Como Fugir?

Publicado por em jul 30, 2006 em Blog | 10 comentários

Muitos relacionam o vegetarianismo com um alto consumo de soja, para suprir a diminuição de proteína na dieta vegetariana. Pode ser o caso de muita gente, mas se a pessoa é vegetariana principalmente por razões ambientais, não faz muito sentido consumir soja como alternativa. As opções vegetarianas nos restaurantes não especializados invariavelmente passam pelo PTS (Proteína Texturizada de Soja), que nada mais é que o resíduo da extração química do óleo de soja. Aliás, diga-se de passagem, a soja não é uma oleaginosa, tem apenas 18% de óleo e precisa passar por um processo muito drástico, com uso de solventes, para que o óleo seja extraído e comercializado como óleo vegetal saudável e estar presente em praticamente todos os alimentos industrializados, de uma forma ou de outra (lecitina de soja é de soja!).
É muito difícil fugir dela. No Reino Unido ela está em 60% dos alimentos industrializados. Não tenho dados para o Brasil, mas sei que é muito. Evito ao máximo alimentos industrializados, mas tenho certeza que toda a comida que é preparada no restaurante por quilo que almoço durante a semana tem óleo de soja, afinal, é o óleo vegetal mais barato do mercado. Ah, se um dia a destruição ambiental fosse incluída no preço ….

Precisei comprar óleo vegetal, afinal ele é usado amplamente na cozinha de qualquer casa, mesmo que não se faça frituras. Como você refoga a cebola e o alho se não tiver algum óleo? Pois bem, comprei óleo de milho como alternativa. Olhei tão cuidadosamente o rótulo e mesmo assim me escapou um detalhe. Cheguei em casa e percebi: é da Bunge! Logo em seguida assisti um webcast com uma entrevista muito interessante do Michael Pollan, e lá nos EUA aparentemente o problema é outro: o milho está em tudo, destruindo a biodiversidade, massacrando os pequenos produtores.

Voltando para a soja, há alguns anos, enquanto ainda estava na Escócia, li um artigo no jornal que tinha como tema principal: ” a recusa dos europeus em consumirem soja transgênica está destruindo a Floresta Amazônica”. Na época fiquei indignada com essa correlação construída pelo jornal. O artigo dizia claramente que a floresta estava sendo derrubada para cultivar soja não-transgênica para o mercado europeu exigente, levando a crer que se os europeus aceitassem consumir soja transgênica o problema seria minimizado.

Em meu ver a correlação é outra: o alto consumo de carne e alimentos industrializados está destruindo a Floresta, visto que a maior parte da soja produzida no Brasil é exportada (temos a honra de ser um dos países com maior volume de exportação de soja no mundo, em breve vamos superar os EUA) e apenas uma pequena parte da soja é usada para consumo humano. A maior parte é usada para extração de óleo e o resíduo é usado para ração animal. Um artigo interessante foi publicado no The Guardian esta semana, afirmando que as grandes redes de supermercados, cadeias de restaurantes e indústrias da Europa, estimulados pelo Greenpeace, estão iniciando um boicote á soja produzida em áreas ilegais da Amazônica. A exigência agora será para soja não-transgênica e não Amazônica.

Outro artigo investiga o impacto da soja na alimentação humana, e os resultados são alarmantes. Confesso que consumi leite de soja por algum tempo na Escócia, e somente parei quando cheguei aqui porque não achei leite de soja como o de lá, com somente 3 ou 4 ingredientes: soja, água e sal (e suco de maçã para o adoçado). O que tem no mercado aqui (e que aparentemente as crianças adoram), tem tanto ingrediente (corante, acidulante, flavorizante, etc) que fiquei espantada. O artigo faz muitas ressalvas quanto ao uso do soja principalmente na alimentação de crianças, relacionando com obesidade e infertilidade.

10 Comentários

  1. Algumas informações extras:

    PTS é Proteína Texturizada de Soja . É o resíduo da extração química de óleo de soja, que é comercializado em cubos secos para substituição de proteína.

    De acordo com a Resolução CNNPA nº 14 , de 28 de junho de 1978 (D.O de 28/06/1978):

    II – PROTEÍNA TEXTURIZADA DE SOJA

    1. DESCRIÇÃO

    1.1 Definição: Proteína Texturizada de Soja é o produto protéico dotado de integridade estrutural identificável, de modo a que cada unidade suporte hidratação e cozimento, obtida por fiação e extrusão termoplástica, a partir de uma ou mais das seguintes matérias-primas: proteína isolada de soja, proteína concentrada de soja e farinha desengordurada de soja.

    1.1.1 A proteína texturizada de soja é utilizada como ingrediente de alimentos como fonte protéica e como “extensor” em produtos de carne.

    E como se fabrica a proteína de soja?

    Em primeiro lugar, retira-se da soja moída o seu óleo e o seu carboidrato, através de solventes químicos e alta temperatura. Em seguida, mistura-se uma solução alcalina para separar as fibras. Logo após, submete-se a um processo de precipitação e separação utilizando um banho ácido. Por último, vem um processo de neutralização através de uma solução alcalina. Segue-se uma secagem a altas temperaturas e à redução do produto a um pó. Este produto, altamente manipulado, possui seu valor nutricional totalmente comprometido. As vitaminas se vão, mas os inibidores da tripsina permanecem, firmes e fortes! (Rackis JJ et al The USDA trypsin inhibitor study. I. Background, objectives and procedural details. Qual Plant Foods Hum Nutr , volume 35, pág. 232).

    Descrição da DuPont

    Proteína Texturizada de Soja

    Descrição
    Com teor mínimo de 70% proteína, de sabor extremamente neutro, seu uso se estende pelos mais diversos tipos de produtos, tais como barras energéticas e proteicas, cereais matinais, snacks, produtos cárneos, entre outros.

    Aplicação
    Barras energéticas e proteicas, cereais matinais, snacks, produtos cárneos, entre outros.

    Artigo muito interessante: A Polêmica da Soja, no site do Conselho Federal de Nutricionistas:

    SOJA INDIRETA: Além do grão, da soja fermentada, do tofu, do leite, do farelo e da proteína texturizada, a soja comparece ao prato do brasileiro muito mais do que ele imagina. Segundo o médico gaúcho José Carlos Brasil Peixoto, a indústria alimentícia hoje inclui a soja em sorvetes, bolachas, refrigerantes, pães, massas, salsichas, doces e até na margarina, tornando quase impossível não se comer o produto.

  2. Bem, de quando em quando eu como algo de soja sim. A minha mae gosta de fazer salada com brote de soja, e eu de vez en quando faço, o que agora nao sei se e bom ou nao. Vc que acha?
    Quanto do PTS, bem vc sabe que eu gosto de fazer uma pasta assim con carne, e o PTS faze as vcs como ser for. O problema e, como sustitue vc o PTS? Que alternativas tem?
    Em quanto ao leite de soja, bem nunca gostei. E so um problema disso. Temtei varias vezes,(minha mae gosta muito ) mais nao gostei. O que sim estou trocando e o leite. Descobri que na Colombia que eles fazem o chocolate com agua, nao com leite. O gosto e diferente, mais depois de ficar duas semanas la,tomando chocolate desse jeito acostumei. Isso esta me ajundando a eliminar o leite de vaca

  3. Beta, umas das unicas coisas de soja que usamos aqui em casa é o suco Ades. O Pedro adora. tem muito conservante, é?? que pena =(

    beijocas…
    PS>: deixei um comentário no post anterior. 😉

  4. Que tal começarmos a pensar em Raw Food – alimentos crus – alimentos energéticamente vivos. Fogão, pra que? Refogar, pra que? Tudo isso passa a não ter mais sentido qdo se vai além do que aprendemos através de nossos pais, avós, e gerações e gerações – apenas se torna um conceito antigo.

    No momento moro na Califórnia e lhe informo que a beleza da alimentação crua, viva, plant source only, colorida, saborosa naturalmente – mesmo utilizando óleos, porém com extração a frio ou que não excede certa temperatura para não modificar as moléculas do mesmo… enfim… tudo nessa vida há uma maneira de ver e rever… pense nisso! E hoje em dia a informação na Internet é vasta – vale a pena pesquisar!

  5. Eu sou um vegetariano recente, porém convicto.
    Não conheço muitas variações de cardápio, estou começando a procurar alternativas.
    A Quinua parece ser uma boa fonte de proteína e eu adoro cereais.
    Mas não temos proteína texturizada de quinua ainda.
    A carne de glúten parece ser outra alternativa. Ainda não experimentei.
    O Cleber, nosso amigo do Fórum Caxambu diz que os funghi são cheios de proteína. Só provei com spaghetti.
    Agora, a soja está muito presewnte em tudo, é acessível, está nas prateleiras dos mercados.
    Precisamos propor alternativas e criar demanda.
    Feijão?
    Gosto da soja, não tenho problema com o sabor. Adorei a quinua, nas versões laminada, pó, pipoca e outros cereais semelhantes dos Andes.
    Mas ainda é caro.
    É isso

  6. Cara Roberta,

    li com grande interesse os comentários à respeito da soja em nossa
    alimentação e a relação de impacto ambiental que provoca sua
    produção.
    Mas é fundamental lembrar que a maior parte de sua produção é destinada à alimentação animal, mais propriamente aos imensos e
    intermináveis rebanhos de ruminantes. Sendo assim, sob a óptica
    ambiental, o nosso problema não é consumir a soja, e sim, consumir a
    carne e os derivados de origem animal.

    E claro, não devemos distorcer a idéia da fonte de proteí­na. Quem deixa de ingerir carne não terá carência de proteína em hipótese alguma se, por exemplo, comer feijão, o ítem mais comum no prato de qualquer brasileiro. Também, não devemos nos bitolar em procurar somente proteína na soja, porque no reino vegetal, são inúmeras as fontes: feijões, lentitha, grão-de-bico, ervilha, sementes, castanhas, etc, etc.

    Espero ter contribuí­do despretenciosamente com mais uma idéia comum e torço para que cada vez mais pessoas “façam da paz um hábito.. alimentar”.

    Cordialmente,

    Bruno Conde Cavagnari

  7. Mesmo sem ser vegetariano, sou grande consumidor de vegetais e grãos e trabalho (ou trabalhava) com soja durante 24 anos. Ante os comentários sem grande base sobre a soja, muitos deles demonstrando apenas preconceito arraigado contra, pretendo tentar esclarecer alguns fatos e até conversar a este respeito. A soja da Amazônia é TODA transgênica, a campanha contra ela fundamentando o desmatamento foi dirigida por exportadores americanos e principalmente argentinos na medida que derrubam concorrentes. Eles que produzem e exportam somente soja transgênica (95 e 100% da produção lá) enquanto aqui não chega a 65%. Entretanto, o desmatamento maior ocorreu e ocorre não na Amazônia que é uma bandeira internacional, é no Pantanal, é na Mata Atlântica, por isso nunca trabalhei com soja proveniente de “áreas suspeitas de desmatamento”. Outra fundamentação importante esclarecer, hoje o Brasil produz óleo de soja em sua maioria por separação química (bhexano que é um processo tipo alcoólico) entretanto há um bom percentual de extração mecánica (entre 20 e 30%), por prensagem, sem químicos e geralmente é utilizado o resultante de farelo neste processo como base de fabricação de alimentos humanos. As multinacionais (Solae, Bunge, Cargill, etc) dificilmente utilizam este tipo de produto como base pela necessidade de grandes volumes de produção e de baixo custo.
    Outro engano é sobre a proteína texturizada, existem no mercado como dito antes, produtos provenientes de extração mecánica, o processo para chegar à texturização é feito por prensagem em prensa tipo parafuso com processo molhado que usa como solvente a “Água” e não químicos como muitos informam erroneamente. Segundo, a temperatura que atinge na prensagem elimina as anti-tripsinas sem necessidade de cozimento e isso é facilmente analisado e verificado em qualquer laboratório. Terceiro, não há no mercado brasileiro proteína Texturizada com 70% de teor de proteína porque uma das falhas na cadeia de produção brasileira é a falta de volume na produção de concentrados e isolados de soja (hoje com predomínio absoluto de Solae/Bunge) pelo que encareceria demasiado o custo importando para um mercado sem hábito de uso. A existente no mercado é com 42 a 48% de proteína.
    Que há industrias que utilizam de métodos não convencionais ou 100% honestos na sua produção ou nas informações prestadas lamentavelmente sabemos, mas estão em todos os ramos e seguimentos de mercado. A partir do momento que não manifestamos desagrado sequer com os escândalos que atingem o poder, não poderemos ter confiança absoluta no que nos aprontam os industriais.

  8. Olá

    Agradeço a informação. Mas, vi um dia desses, num livro de Yoga do Hermógenes (um pouco antigo, agora deve ser talvez pior), a informação de que 85% do milho brasileiro vai para o gado!!! Então, o problema é o gado, e não o milho. Também, vi, em outra fonte (se não me engano, Un Gusto Superior), que, se fôssemos todos vegetarianos (não especificado se lacto ou vegano ou ovolacto), a Terra estaria tranquila mesmo se fôssemos 20 bilhões!
    Sou vegana, mas acho que se as pessoas limitassem a carne para finais de semana, e parassem de comprar tanta coisa embalada em tantos pacotinhos pequenos (balas, chocolatinhos, macarrão instantâneo) já resolveria este desafio de preservar a Mãe.

    Luz =)

  9. A gente sempre tem que procurar mais informações…
    A alimentação do gado é sim um problema.
    Se alimentar de gado produzido no modelo atual também.
    Interessante a contribuição do Mario Rivas, realmente podemos estar vendo apenas um lado da moeda na questão da extração de PTS.
    Mas eu sugiro a leitura de artigos sobre os problemas de se consumir a soja de qualquer forma que não a fermentada.
    Lembrando que os orientais a consomem assim, na forma de shoyu, missô…
    Porque quando se fala em soja lembra-se sempre da saúde plena dos orientais.
    E para os vegetarianos…
    A natureza nos oferece tantas possibilidades, porque essa limitação?
    Se queres ser vegetariano tens que se livrar do estigma da carne.
    hamburguer vegetal? salsicha vegetal?
    Vamos comer comida de verdade, como diria Michael Pollan.
    Arroz, feijão, mandioca, verdes, amarelos, vermelhos, roxos…
    Acho que muito mais importante que resolver ser vegetariano é se alimentar de forma consciente.
    Ler e conhecer nunca é de mais pra quem procura isso, e tanto esforço se reflete na qualidade de nossa saúde física e mental.

  10. Adorei!!

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  1. Transgênicos no Supermercado | Alimento Para Pensar - [...] tempos escrevi sobre a fuga da soja, e continuo de todos os jeitos tentando fugir dela. Não consegui chegar…

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